Enamed 2025 revela fragilidades na formação médica e leva MEC a anunciar medidas de supervisão
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Juliana Mucury 19 de janeiro de 2026

Nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, o Ministério da Educação divulgou, em Brasília, os resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed 2025. O evento contou com a participação do ministro da Educação, Camilo Santana, e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e marcou um novo capítulo no processo de avaliação e regulação da formação médica no país.

Os dados apresentados revelaram fragilidades importantes na qualidade do ensino médico. De acordo com o balanço do MEC, cerca de um terço dos cursos de Medicina avaliados não alcançou desempenho considerado adequado. O Enamed utiliza uma escala de notas que varia de 1 a 5, sendo os conceitos 1 e 2 classificados como não proficientes. Ao todo, 351 cursos participaram da avaliação, incluindo instituições públicas federais, estaduais e municipais, além de instituições privadas com e sem fins lucrativos e cursos classificados como especiais.

A distribuição dos cursos evidenciou que uma parcela significativa concentrou-se nos conceitos mais baixos. Aproximadamente 7% dos cursos obtiveram conceito 1 e 23,6% ficaram no conceito 2. Outros 22,7% alcançaram conceito 3, enquanto 33% obtiveram conceito 4 e 13,6% atingiram o conceito máximo, 5. Esses resultados passaram a compor o Conceito Enade e serão utilizados como base para ações de supervisão da educação superior.

No desempenho individual, 75% dos participantes do Enamed atingiram nível considerado proficiente. Entre os estudantes concluintes, o índice foi de 67%, o que corresponde a mais de 39 mil alunos. Já entre os participantes do público geral, que inclui profissionais já formados, o percentual de proficiência alcançou 81%. Ao todo, cerca de 89 mil participantes tiveram seus resultados analisados.

A avaliação também revelou diferenças significativas entre os tipos de instituições. Universidades estaduais e federais apresentaram os melhores índices de proficiência entre seus estudantes, enquanto cursos vinculados a instituições municipais registraram os piores resultados. Entre as instituições privadas, aquelas sem fins lucrativos apresentaram desempenho superior em comparação às com fins lucrativos, indicando disparidades estruturais e pedagógicas no sistema de formação médica.

Com base nesses resultados, o Ministério da Educação anunciou a abertura de processos administrativos de supervisão para os cursos enquadrados nos conceitos 1 e 2. As ações serão conduzidas pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior e poderão resultar em medidas cautelares, como redução ou suspensão de vagas, restrições à participação em programas federais de financiamento estudantil e impedimento de ampliação de cursos. Em situações mais graves, poderá haver suspensão temporária de processos seletivos. As medidas terão vigência inicial até a divulgação do Conceito Enade 2026.

Segundo o MEC, as decisões estão amparadas pela legislação que rege o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, que atribui ao Estado o dever de supervisionar cursos quando há risco à qualidade da formação e ao interesse público. O Enamed, nesse contexto, passa a ocupar papel central não apenas como instrumento de avaliação, mas também como mecanismo de regulação da graduação em Medicina.

Criado em 2025, o Enamed substituiu o modelo anterior de avaliação específico para os cursos de Medicina. A prova foi ampliada, passando de 40 para 100 questões, e passou a ser aplicada anualmente a todos os estudantes concluintes. A partir de 2026, o exame também será aplicado aos alunos do quarto ano do curso, permitindo um acompanhamento mais contínuo da formação médica ao longo da graduação.

A divulgação dos resultados chegou a ser questionada judicialmente por entidades representativas de instituições privadas, que alegaram possíveis prejuízos reputacionais e mudanças metodológicas após a aplicação da prova. A Justiça, no entanto, manteve a publicação dos dados, entendendo que a divulgação não implica penalidades automáticas e que a supervisão faz parte das atribuições legais do poder público.

A apresentação dos resultados do Enamed 2025 reforça a centralidade do debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil e evidencia a intenção do governo federal de intensificar o acompanhamento dos cursos, com impactos diretos para instituições de ensino, estudantes e para o sistema de saúde como um todo.

Por  Juliana Mucury 

Fontes:
Ministério da Educação
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
Correio Braziliense